Vamos nos Preparar Para Esta Noite Santa, Com Esta Maravilhosa Lenda, Onde o Menino Jesus Humildemente já Manifesta o seu Poder de Deus

A LENDA DE SÃO DIMAS

Conforme narra o Evangelho, “ao mesmo tempo foram crucificados com Jesus dois ladrões; uma à direita e outro à esquerda”(Mt. 27, 38)

A história do Bom Ladrão ‑ conhecido pelo nome de Dimas ‑ é familiar a todos. Ele foi o primeiro que, reconhecendo Cristo‑Rei, depois de o confessar dizendo: “Senhor, lembra‑te de mim quando chegares ao teu reino” (Lc. 24,42), teve a felicidade de ouvir da boca do Redentor moribundo aquelas consoladoras palavras: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”.

Justo é, pois, e consolador para nós, comemoramos a morte do Ladrão cuja alma teve a felicidade de, naquele dia mesmo, ser levada ao céu pelo Redentor do Mundo.

* * *

DesertoSeria de madrugada quando São José viu em sonho o Anjo do Senhor que lhe dizia: “Levanta‑te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes há de buscar o menino para matá‑lo.”

São José levantou‑se sobressaltado e, acordando sua esposa Maria, deu‑lhe conta da ordem do Anjo. Com toda diligência, a Virgem recolheu imediatamente as coisas indispensáveis para a viagem, enquanto S. José arreava a burrinha que devia conduzi‑los através do deserto; e, depois de envolver com todo cuidado o Menino, a Sagrada Família saiu tranqüilamente de Belém, a caminho do desterro.

Um dos principais riscos dessa jornada era o encontro com os bandidos que assaltavam os viajantes para roubá‑los. Mas nem por isto desistiram S. José e Maria, pois iam obedecendo ao Anjo do Senhor, para salvar da morte o Redentor do Mundo. Jesus ia com eles, e o Céu os protegeria; e a esperança deles não falhou.

* * *

Mal haviam cruzado as fronteiras da Iduméia, e considerando‑se a salvo da perseguição de Herodes, eis que, a longa distância atrás deles, S. José viu que se levantava uma nuvem de pó. Chegavam eles naquele momento perto de umas rochas entre as quais havia um enorme e vetusto terebinto com o tronco gasto e inteiramente seco; e, como o calor aumentava extraordinariamente disse o Ancião a sua esposa:

‑ Será bom que descanses aqui, sentando‑te no oco desta árvore. Quando o sol cair, seguiremos adiante.

A virgem obedeceu incontinente, e, descendo da burrinho com seu filhinho, foi sentar‑se no oco da árvore, como José lhe havia dito. Mas, como o terebinto não tinha folhas, a sombra era muito escassa.

De repente operou‑se uma maravilha. A árvore encheu‑se de folhas, como se reverdescesse instantaneamente, e o mais singular foi que ao mesmo tempo nasceu uma frondosíssima trepadeira coberta de flores azuis, que cobriam inteiramente a Virgem e o Menino, proporcionando‑lhes fresca sombra e ocultando‑os por completo à vista dos que já se aproximavam.

Enquanto se passava este prodígio, São José percebeu que os que se aproximavam não eram herodianos, mas sim uns homens de má catadura… eram ladrões.

deixando escondidos a Mãe e o Menino, São José subiu precipitadamente a uma das rochas, para se esconder… Já não era sem tempo.

‑ Que coisa curiosa! ‑ disse Matha, o chefe dos ladrões, ‑ eu poderia jurar que até há poucos dias este velho terebinto estava completamente seco.

‑ O que me chama a atenção ‑ replicou Joca, o segundo chefe ‑ é que tenha crescido neste lugar, entre rochas, esta belíssima trepadeira coberta de flores azuis.

Ao que Chamatha, um dos bandoleiros, acrescentou:

‑ Eu opino por que descansemos debaixo desse frondoso terebinto, tenha ele estado antes seco ou não.

Os bandidos acharam boa esta observação e, tirando as suas provisões, começaram a comer debaixo da sombra do terebinto.

Enquanto isto faziam aqueles desalmados, um moço de péssima catadura chamado Gestas rondava pelos arredores, e, havendo encontrado o burrinho de São José, chegou com ela triunfante, dizendo:

‑ Enquanto vós descansais, eu fiz um magnífico achado. Vim nas ancas do cavalo de Chamatha, mas já não necessito dele, pois este burro está gordo e me servirá de cavalgadura.

Ao que disse Matha.

‑ Embora tenhas achado esse burro, ele não pertence a ti, mas a toda a quadrilha. Amarra‑a e deixa‑a quieta, que a seu tempo a rifaremos entre todos.

De muito má vontade, Gestas teve de cumprir as ordens do capitão; mas, em lugar de se sentar com os outros, continuou percorrendo os arredores à procura do dono da cavalgadura. E, com efeito, dentro em poucos minutos pôs‑se a gritar:

‑ Já encontrei o dono, está ali em cima escondido entre as rochas.

Logo os bandidos se puseram de pé, preparando seus arcos e flechas para o ataque, temendo que não fosse um só, porém vários, os homens que podiam ter‑se escondido.. Vendo isto, São José saindo do seu esconderijo, disse:

‑ Quem quer que sejais, não dispareis, que eu sou um velho e desceu imediatamente!

‑ Desce, velho infeliz ‑ disse Gestas disparando uma flecha ‑ desce logo, se não queres que eu te atravesse.

‑ Ninguém atire, ‑ exclamou Matha com império ‑ porque, se é um velho, havemos de respeitá‑lo, conforme prometi a Javé.

José desceu e, dirigindo‑se ao chefe, disse:

‑ Muito agradecido pela proteção. Sou um pobre velho que vou com minha esposa e seu filhinho ao Egito. Não temos dinheiro; antes, os poucos víveres que trazíamos estão quase acabados.

‑ E onde estão tua mulher e o menino? ‑ perguntou Matha.

Nesse momento, de modo admirável abriu‑se a trepadeira e apareceram a Virgem e o Menino no terebinto.

Os ladrões ficaram admirados ao contemplarem aquele quadro, e, sem querer, dobraram o joelho, exceto Gestas, que ficou de pé.

‑ Senhora disse Matha ‑ nada temas de nós, pois juramos nunca fazer mal a pessoas como vós.

LeãoEstavam todos enternecidos mirando o Menino e sua mãe, quando se escutou o terrível rugido de um leão. Assustados e temerosos, os bandidos correra pressurosos a empoleirar‑se nas rochas subindo outros pelos ramos do terebinto. Só Gestas tinha ficado em pé, como petrificado pelo medo.

De repente, dando um salto colossal, um magnífico leão plantou‑se debaixo do terebinto, justamente diante de Maria e do Menino. José pusera‑se ao lado da esposa e do filhinho para defendê‑los. O soberbo animal, depois de dar uma rabanada em Gestas, derrubando‑o, dirigiu‑se para a Sagrada Família.

Passou‑se então uma coisa extraordinária. O Menino Jesus escapando‑se dos braços de sua mãe, acercou‑se do leão. O rei do deserto, em vez de lhe fazer mal, dobrou as patas diante do Menino e, carinhoso, lambeu‑lhes os pezinhos, com estupor dos bandidos que tal viam. Então esta, dirigindo‑se aos bandidos, lhes disse:

‑ Nada temais, este animal não vos fará mal, pois assim mandou meu filho Jesus. Descei todos sem temor algum.

Os bandoleiros receavam descer, mas, ante as repetidas instâncias de Maria e de José, foram descendo aos poucos, enquanto o leão, satisfeito, se deitava aos pés do Menino Jesus.

Quando se tranqüilizaram, Matha, dirigindo‑se a José e a Maria, disse:

‑ Estou vendo que o céu vos protege de modo maravilhoso, e muito me alegro de , mesmo antes de presenciar estes prodígios, vos haver oferecido a nossa pobre proteção. Agora, se o quiserdes, rogo‑vos acompanhar‑nos à nossa guarida, que não dista muito deste lugar. Ali minha esposa Ana vos servirá como escrava, e o mesmo faremos todos nós.

‑ Agradecemos‑vos o vosso convite ‑ respondeu Maria ‑ e contentes vos seguiremos à vossa morada.

E, isto dizendo, José trouxe a burrinha, na qual montaram a Virgem e o Menino; e, escoltada pelo leão, que junto a guardava como um cão, e seguida pelos ladrões, empreendeu a Sagrada Família o caminho para a guarida destes.

Ana, a esposa de Matha, o chefe dos bandoleiros, tinha um menino de dois anos de idade, chamado Dimas. Infelizmente o pequenino padecia de uma doença asquerosa: todo o seu corpo estava cheio de glândulas purulentas. Por mais remédios que sua pobre mãe lhe houvesse aplicado, a doença continuava, reduzindo Dimas ao estado mais miserável e repugnante.

Grande foi a surpresa da boa mulher quando viu chegar a quadrilha de ladrões, não carregados de despojos, como de ordinário, mas guardando respeitosos a Sagrada Família. Porém o que mais lhe chamou a atenção foi ver o leão que os acompanhava. Cheia de temor, escondeu‑se dentro da cova que abrigava os ladrões, lavando consigo o seu desventurado filhinho Dimas.

‑ Sai, Ana ‑ disse‑lhe Matha ‑ não temas nada; o leão não te fará mal. Vem e serve, como tua senhora, Maria de Nazaré, a mãe do Menino Jesus.

A Virgem e o MeninoAo ouvir essas palavras, Ana saiu do seu esconderijo, e, ao ver a Virgem e o Menino, ficou tão encantada com ambos que, sem temor do leão, foi logo receber Maria, e, ajoelhando‑se diante dela, disse:

‑ Eis aqui a tua escrava; em que posso servir‑te?

Descendo da burrinha e olhando para a boa mulher, a Virgem disse:

‑ Só te peço que me dês um pouco de água para banhar meu Filhinho, a quem o terrível calor do deserto e a poeira fazem sofrer.

Ao ouvir esse pedido, a boa mulher, dirigindo‑se a seu marido Matha, disse:

‑ Que vamos fazer? A fonte que manava ao pé das palmeira secou, e não temos nem uma gota de água…

Grande foi a surpresa e contrariedade dos ladrões quando ouviram esta notícia, pois o povoado  mais próximo distava várias léguas da espelunca. Imediatamente Matha ordenou a dois ladrões que, tomando quatro grandes odres de couro de carneiro, fossem imediatamente àquele poço para os encher de água. Montando em cavalos de reserva, eles partiram imediatamente em carreira desabalada.

Enquanto isso, a Virgem sentara‑se à entrada da cova, trazendo consigo o Menino. Mas este, desprendendo‑se dos braços de sua Mãe, aproximou‑se de uma grande rocha que ali havia, e, cavando com as mãos a areia seca, fez um pocinho, do qual imediatamente começou a brotar uma fonte cristalina e abundante de água.

A surpresa dos ladrões foi extraordinária, e apesar de estarem sedentos eles e suas cavalgaduras, não se atreviam a beber daquela água melarosa. O leão, sem embargo, aproximou‑se, e, metendo as fauces no córrego que já se formara, começou a beber até matar a sede. Vendo isto, os bandidos fizeram outro tanto, e Ana, tomando uma vasilha de barro, encheu‑a foi oferecê‑la a Maria, ‑ que deu de beber ao Filhinho, dando depois a José, e bebendo Ela finalmente.

Perto dali havia um grosso tronco de árvore ocado, que servia para dar de beber aos animais, Tomando um grande cântaro, Ana começou a encher aquele bebedouro, e, quando este se encheu, disse:

‑ Senhora, desculpai o rústico da bacia, mas aqui não temos coisa melhor.

Então a Virgem, tomando o Filhinho, banhou‑o na árvore oca, com grande satisfação do Menino.

Enquanto Maria banhava o Menino, Ana tinha ido buscar Dimas.

‑ Senhora, disse ela, olha meu pobre filhinho coberto de pústulas. Que lhe poderei fazer para que ele sare?

E a Virgem respondeu:

‑ Banha‑o nesta mesma água, e espero que ele ficará limpo.

Imediatamente, tomando Dimas, Ana mergulhou‑o na mesma água que havia servido para banhar o Menino Jesus, e, com imensa alegria viu que mal aquela água lavara o corpo de Dimas, este ficou perfeitamente são.

A gratidão da pia Ana foi indizível, e menor não foi a de Matha, que, vendo o milagre, foi ajoelhar‑se diante da Virgem que tinha no colo o Menino Jesus.

O único que no acampamento não participou da alegria causada pela cura de Dimas foi Gestas. Este odiava o pequenino, pois sabia que Dimas assumiria o comando da quadrilha, como sucessor de seu pai Matha, e ele Gestas sempre sonhara ser o chefe dos bandidos.

Se antes era grandíssimo o temor reverencial e o respeitoso carinho dos bandoleiros para com a Sagrada Família, depois desse prodígio não somente cresceram um e outro, como também aqueles infelizes perguntava,‑se entre si quem poderia ser aquele Menino. Bem depressa haviam de ter exposta à sua pergunta.

Na manhã seguinte, mui de madrugada, chegaram os que tinham ido buscar a água, trazendo a notícia de que um piquete de herodianos lhes vinha seguindo os passos. O pretor havia‑lhes dito que da parte do rei Herodes eles vinham em busca de um Menino nascido em Belém, o qual tinham vindo adorar, “como ao Rei dos Judeus” uns Magos do Oriente.

‑ De sorte ‑ interrogou‑os Matha ‑ que este Menino é o Rei dos Judeus que deve suceder a Herodes?

‑ Não é só o rei dos Judeus,‑ respondeu um deles ‑ porém o Messias anunciado pelos Profetas.

‑ Assim o tem assegurado sem a menor dúvida todos os Escribas e Doutores da Lei. Quando Herodes mandou perguntar a eles: “Onde havia nascer o Cristo, o Messias?”, eles responderam:”Em Belém de Judá”, pois assim está escrito no profeta:”E tu, Belém de Judá, certamente não és menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti há sair o chefe que governe o meu povo de Israel” (MT 2, 3‑6).

‑ De sorte que Herodes o reconhece como o Messias? perguntou Matha.

‑ Quando Herodes ouviu essa resposta, ‑ prosseguiu o interrogado ‑ “Chamando em segredo os Magos, inquiriu cuidadosamente deles o tempo em que a estrela lhes havia aparecido. E, encaminhando‑os a Belém, disse‑lhes: Ide, e informai‑vos com segurança do que há a respeito desse menino; e achando‑o, dai‑me aviso, para que eu também vá adorá‑lo” (Mt. 7‑8)

Ao que Matha respondeu:

‑ SE esse malvado Herodes quis ir adorar esse menino, é porque o tem como o Messias.

José, que havia escutado tudo isso, adiantando‑se disse:

‑ Ainda que tenha de reconhecer o Menino como o Messias Herodes não pretende adorá‑lo, porém, ao contrário, quer matá‑lo, e por isso nós saímos fugindo…

‑ DE sorte que esses sodados o que querem é matar o Menino? ‑ perguntou Matha. Pois a bom lugar vieram. Todos nós estaremos dispostos a defendê‑lo com nossas próprias vidas.

E chamando os bandidos, ordenou‑lhes se escondessem em diversos pontos, preparando suas flechas para matar os herodianos já um sinal que lhes desse.

Os bandidos puseram‑se imediatamente em movimento, e dentro em poucos minutos estavam em seus respectivos lugares, decididos a morrer antes que a permitir que os herodianos tocassem no Menino Jesus. E Matha disse:

‑ Bom será, Senhora, que, com o Menino, te escondas no covil.

Nesse momento o leão, como se compreendesse o perigo, lançou‑se aos pés da Virgem, não deixando que ele se levantasse; ele estava ali para defendê‑los. Pelo que, Maria não quis seguir o conselho do bondoso Matha.

Pouco tempo depois chegava o piquete de herodianos. Dirigindo‑se a Matha, o pretor que os comandava lhe disse:

‑ Soube que aqui se encontra um velho chamado José com sua esposa Maria e um Menino. Meu amo o Rei Herodes mandou‑me para que os leve à sua presença, pois quer adorar o Menino como o Messias.

‑ Efetivamente ‑ respondeu Matha ‑ aqui está “o Rei de Israel que nasceu, o Messias”; mas advirto‑te que ele não irá contigo, e, se fizeres o menor movimento para procurar levar o Menino, asseguro‑te que tu e os teus ficareis estendidos na areia para pasto dos abutres.

‑ Mas quem és tu que tão arrogante te mostras? ‑ disse sorrindo o pretor.

‑ Sou Matha ‑ respondeu este ‑ o chefe da quadrilha mais terrível que percorre o deserto.

‑ Nada tenho contigo, ‑ disse o pretor ‑ porém em nome do Rei Herodes ordeno‑te que imediatamente entregues esse menino.

Ao que, sorrindo, Matha respondeu:

‑ Lá esta Ele no colo de sua mãe. Mas de novo te aviso que, ao menor movimento que faças, estarás morto.

‑ Soldados ‑ disse o pretor ‑ sigam‑me.

E, isto dizendo moveu o seu cavalo em direção ao lugar onde estava a Sagrada Família.

Então Matha, com toda tranqüilidade, metendo os dados na boca, soltou um assobio. Imediatamente choveu sobre o herodianos uma infinidade de flechas, o que os fez retroceder espantados. Porém mais aterrorizados ficaram estes quando o leão, levantando‑se dos pés de Maria, soltou um rugido tremendo, e, sem lhes dar tempo, arremessou‑se sobre os herodianos, estraçalhando vários deles, enquanto os outros que fugiam caiam mortos sob as flechas dos bandidos…

Quando o encontro terminou, semeando de mortos o campo, o leão voltou tranqüilamente para onde estava o Menino, satisfeito com a sua vitória.

‑ Temos que nos ir ‑ disse José a Matha no dia seguinte.

‑ Ir como? Para onde? ‑ perguntou aflito o ladrão.

‑ E não podeis permanecer mais alguns dias conosco?

‑ Agradecemos‑te a tua hospitalidade, mas não estão longe as fronteiras da Judéia, e é provável que Herodes mande novos soldados em nossa perseguição.

‑ E daremos cabo deles como dos anteriores ‑ disse Matha.

‑ Isto é o que procuramos evitar ‑ interrompeu a Virgem ‑ e, assim, forçoso nos é partimos.

Enquanto este diálogo se passava entre os maiores, o Menino Jesus e Dimas brincava,. Jesus tomava dois pedacinhos de madeira, e, formando com eles uma cruzinha, havia‑a dado a Dimas.

‑ Guarda essa lembrança de meu Filho ‑ disse Maria a Ana ‑ pendura‑a ao pescoço de teu filho Dimas. Que ele nunca se separe deles…

No dia seguinte, escoltados pelos ladrões ‑ menos Gestas ‑ e acompanhados pelo Leão, Jesus, Maria e José dirigiram‑se para o Egito.

Poucos dias depois, Matha e os seus tornaram a passar pelo lugar onde haviam encontrado a Sagrada Família, e, com admiração de todos, viram que o terebinto já não tinha em uma folha e a trepadeira havia secado. Apeando‑se da sua cavalgadura, Matha aproximou‑se da trepadeira seca e tirou umas sementes.

Quando voltou à sua guarida, deu‑as a sua mulher Ana. Esta semeou‑as, regando‑as com a água da fonte a que desde então chamaram “do Menino Rei”. A seu tempo a semente brotou, e a trepadeira cobriu‑se de flores azuis. Todos os dias, lavando seu filho Dimas cresceu, ela lhe contava a história de Maria e do Menino Rei.

‑ Por que gostas tanto deste lugar? ‑ perguntou uma dia Matha a sua mulher.

‑ Porque esta trepadeira me lembra Maria de Nazaré, e parece‑me que, quando falo dEla a Dimas, esta trepadeira me cobre como se fosse o manto da Virgem a quem em minha alma rogo proteja o meu filho.

E desde esse dia a trepadeira de flores azuis foi por todos chamada “O manto da Virgem”.

Com a morte do pai, Dimas torna‑se o chefe dos bandidos. Gestas separa‑se do bando e forma outra quadrilha que espalha o na região

Sua mãe sempre o exorta a conversão. Sua esposa se converte e segue os ensinamentos de Nosso Senhor.

Mesmo roubando, várias vezes São Dimas cruza os passos de Nosso Senhor.

Até que, próximo à época da Paixão, ele é preso por ter roubado Caifás.

Na prisão, pede a sua esposa para restituir tudo o que havia roubado.

Com isso ele ficou com uma dupla sensação de tristeza e de tranqüilidade, como nunca tinha sentido em sua vida. Estava triste porque já não tinha nada neste mundo… Todavia, estava tranqüilo, porque havia restituído o que roubara.

Lembrava‑se de Zaqueu, perfeitamente feliz depois que dera aos pobres a metade dos seus haveres, e, o que mais, era, depois de haver dado o triplo pelo que havia defraudado, o que lhe valera um sorriso do Mestre. Sorriso infinitamente mais valioso do que todos os tesouro do mundo. Sorriria Ele a ele também? Assim ele esperava.

Imerso nestas reflexões, deitou‑se na palha que lhe servia de leito. Então penso na bolsinha que sempre trazia ao pescoço, presente daquele Menino que o havia curado, anos atrás, da asquerosa doença que o atormentava nos primeiros anos de sua vida. Teve curiosidade de ver o que continha aquele saquinho, e, tirando‑o, abriu‑o rasgando o pano com os dentes. Grande foi a sua surpresa ao encontrar dentro uma cruzinha de madeira. Tomou‑a nas mãos com misterioso respeito, pois sempre atribuíra àquele talismã grandíssima virtude. Por ele acreditava que se tinha visto livre de muitos perigos durante sua vida criminosa… Naquele momento, sem embargo, via‑o como um presságio. Iria morrer crucificado?…

Mas, coisa curiosa: a morte não lhe infundia temor algum. Ele não havia restituído? Dimas era muito valente, tinha visto muitas vezes a morte de perto, e, embora não a temesse, havia‑se alegrado de não morrer então… Por que?…Agora, sim, estava disposto a morrer, sentindo somente não poder ver o Mestre e lhe dizer como o filho pródigo: “Pai, pequei contra o céu e contra ti…”

Ao dizer estas palavras em voz alta, pareceu‑lhe blasfemar… Como ia ele, o salteador de estradas, manchado de tantos pecados, chamar ao Mestre “Pai”? Jesus não era arei? Não era o Filho de Deus, segundo havia proclamado João Batista?… E, sem embargo, este mesmo Jesus Rei fora quem propusera a parábola do filho pródigo, autorizando todos os que estivessem no mesmo caso a chamar‑lhe Pai…

Então lhe veio uma lembrança, que dormia na sua memória. Sua esposa havia‑lhe contado que uma vez o Mestre, interrogado por seus discípulos, que lhe pediam lhes ensinasse a orar, lhes havia dito: “Assim deveis orar: Padre nosso que estais no céu…” Então ele, Dimas, havia‑se espantado de tanta audácia; chamar a Javé “Pai”, chamar Pai ao Deus dos exércitos?…E, não obstante, assim havia o Mestre mandado a seus discípulos que orassem…

Então Dimas pegou a cruzinha e, beijando‑a como se fosse uma relíquia do Menino Rei, ajoelhou‑se e, sumamente comovido, disse: “Pai, pequei contra o céu e contra ti… perdoa‑me como eu perdôo aos meus devedores… e admite‑me, Senhor, no teu reino…”

Ditas estas palavras, sentiu um consolo tão grande, que os olhos se lhe arrasaram de lágrimas, e ele exalou um profundo suspiro….

Deitou‑se de novo sobre a palha, e, cerrando os olhos, bem depressa adormeceu com o sorriso nos lábios…

E Dimas começou a sonhar.

Via primeiramente o acampamento dos bandidos no deserto onde havia nascido. Ali viu sua mãe Ana que o apresentava a um Menino belíssimo e dizia que aquele era o Menino Rei, perseguido por Herodes. E começou a brincar com o Menino, muito sério, convidando‑O a brincarem de ladrões; mas o Menino, muito sério, respondia‑lhe, levantando a mãozinha: Dimas “não furtarás”. E, como ele insistisse em brincar de bandidos, o Menino Rei havia‑se ido embora dando‑lhe antes uma cruzinha.

Depois viu um corvo e um gavião. O primeiro trazia no bico uma espiga roubada, e o segundo uma pomba que havia matado. Então, pegando do se arco e flechas, atirou neles a matou o corvo, enquanto o gavião fugia com sua presa. De repente, tornou a ver o Menino Rei, que lhe perguntou: Por que mataste o corvo? Ao que Dimas lhe respondeu: Por que roubas as espigas. E tu não queres que te matem quando roubas o alheio, replicou o Menino Rei. Lembra‑te, Dimas, de que escrito está: “Não furtarás”, e, dizendo isto desapareceu.

Então Dimas sentiu que se convertia num corvo, o mesmo sucedendo com seus companheiros, enquanto Gestas e os seus se transformavam em gaviões. E, formando dois bandos, mudaram de sítio, indo‑se para as planícies da Peréia. E os corvos continuavam roubando as espigas, enquanto os gaviões devoravam as pombas. De repente ele sentiu que caia prisioneiro numa armadilha, da qual o tiravam duas mulheres: Tamar, sua esposa, e Ana sua mãe. E sentiu que pouco a pouco se ia convertendo em homem, como antes. E ouviu que Tamar lhe dizia: Reza, Reza, e dize comigo: “Padre nosso… venha a nós o vosso Reino… perdoai‑me os meus pecados”; porém ele resistia a dizer essas palavras e exclamava: “Senhor, lembra‑te de mim quando estiveres no teu reino”…

De repente, o sonho mudou. Ele ouviu que gritavam: “Crucifica‑o”, e sentiu que o levavam a crucificar.

Dimas despertou apavorado. Esfregou os olhos para se certificar de que estava acordado.

“Crucifica‑o… crucifica‑o”, ouviu, que gritava lá fora. Assomou à grade da sua cela, e qual não foi a sua surpresa ao ver uma grande multidão de soldados, sacerdotes e gente do povo que arrastavam um homem para que Pilatos o condenasse à morte! Não pediam que o julgasse, mas que o condenasse à morte.

Pilatos descera ao Litóstrotos para receber o Sumo Sacerdote Caifás e outros ex‑Sumos‑Sacerdotes que o acompanhavam, e que a altos brados pediam a crucifixão daquele homem.

O preso vinha tão desfigurado de rosto, pelos maus tratos que lhe haviam infligido, que a Dimas não foi possível reconhecê‑lo, já que nem pela mente lhe passava pudesse o acusado ser Jesus de Nazaré, a quem no domingo anterior ele vira entrar triunfante no templo, aclamado por todo o povo, como Rei…

‑ Que acusação trazeis contra este homem? ‑ perguntou lhes pilatos.

‑ Tomai‑o então vós outros e julgai‑o segundo a vossa lei ‑ respondeu Pilatos.

Seguiram‑se muitas acusações contra o presumido réu; mas como o Procurador visse que os testemunhos não combinavam, e ouvindo que acusavam do réu de fazer‑se Rei, subiu à parte interior da Antônia, mandando que lhe levassem o preso para interrogá‑lo privadamente.

Da janela do calabouço de Dimas não só se podia ver o que se passava no interior da sala aonde Pilatos levara Jesus, mas podia‑se ouvir perfeitamente o que eles falavam. Então ele reconheceu o Mestre.

Havendo os príncipes dos sacerdotes dito que “haviam achado Jesus revolucionando a não e proibindo pagar tributo a César, dizendo ser o Cristo‑Rei”, Pilatos perguntou a Jesus:

‑ És tu o Rei dos Judeus?

Ao que Jesus respondeu:

‑ Dizes isto por ti mesmo, ou é uma acusação que outros fizeram de mim?

Pilatos respondeu‑lhes:

‑ Acaso sou judeu, eu? A tua nação e os pontífices entregaram‑te a mim.

Então Jesus, com solenidade extraordinária, disse:

‑ Meu reino não é deste mundo; se meu reino fosse deste mundo, sem dúvida que os meus servidores combateriam para que eu não fosse entregue aos judeus. Porém meu reino não é deste mundo.

‑ Então és Rei? perguntou‑lhe Pilatos.

‑ Assim é como dizes, Eu sou Rei; para isto nasci e vim a este mundo, para dar testemunho da verdade; e todo aquele que é filho da verdade escuta a minha voz…

A impressão que este diálogo causou em Dimas foi tão grande ,que ele se retirou para o interior do seu calabouço, meditando, tanto mais quanto pouco depois os acusadores levavam Jesus rumo ao palácio de Herodes, deixando deserto o Pretório.

‑ Ele veio para dar testemunha da verdade ‑ repetia a si mesmo o bandido, ‑ e deu testemunho verdadeiro tento de ser Rei como de que o seu reino não é deste mundo. Esse deve ser, sem dúvida o Messias prometido, aquele que, segundo as profecias, deve ter nascido em Belém de Judá, o qual “foi gerado desde os dias da eternidade”. Este é, sem dúvida, o filho de Deus cujo reino o será eterno e jamais terá fim… Queira o céu que eu possa vê‑lo, para lhe pedir que perdoe os meus pecados e me aceite no seu reino.

O Centurião Márcio apresentou‑se seguido de um piquete de soldados, e, procurando ocultar a sua emoção, disse ao bandido:

‑ Dimas, teus patrícios são uma alcatéia de lobos sangrentos; emprenharam‑se em fazer crucificar hoje mesmo um pobre Homem que não fez mal a ninguém, e o Presidente teve de aceder ao pedido deles…

‑ E a quem vão crucificar? ‑ Perguntou Dimas.

‑ A Jesus de Nazaré, que diz ser o Rei dos judeus.

‑ E poderei eu vê‑lo antes de o crucificarem?

‑ Infelizmente não, isto mesmo te vinha eu dizer, pois a tua sentença de morte vai executar‑se hoje mesmo. Tu e Gestas também sereis crucificados…

‑ Mas poderei vê‑lo? poderei falar‑lhe? respondeu o ladrão, sem pensar na pena que ia sofrer.

‑ Creio que poderás, sim ‑ respondeu, comovido, o Centurião ‑ e assim, rogo‑te nos acompanhes. Mas, antes de saíres, quero dar‑te um pouco de vinho com mirra, para que tenhas coragem.

E apresentando a Dimas um grande copo, este o esgotou sem pestanejar, saindo logo a caminho do patíbulo.

A o sair da Antônia, Dimas encontrou‑se com Ana sua mãe e com Tamar sua esposa.

Gestas saiu igualmente do seu calabouço, blasfemando como um possesso e dando murros à direita e à esquerda, tanto que foi necessário amarrá‑lo e levá‑lo à força no meio de quatro soldados.

‑ Mãe, Tamar, ‑ disse‑lhes o bandido ‑ vai morrer ao lado dEle…

‑ Sabes ‑ disse‑lhe Ana ‑ que apurei que esse Jesus é o Filho de Maria, aquela que esteve em nossa casa quando eras menino?

‑ Isto me dá ainda mais ânimo ‑ respondeu Dimas: ‑ se Ele me curou das postemas do corpo, estou certo de que me perdoará os meus pecados e me aceitará no seu reino que não é deste mundo.

O vinho mirrado começou a fazer efeito em Dimas no momento de o crucificarem. Com este fim lho havia dado Márcio. Ao ver‑se, pois, o bandido suspenso ao infame madeiro, com os braços atados à cruz, olhando com estranheza para os que se encontravam em volta, embriagado pelo vinho começou a proferir toda sorte de insultos.

Gestas, crucificado do outro lado de Cristo, não só proferia insultos, mas blasfemava contra o Salvador. Dimas, ouvindo essas blasfêmias, embriagado como estava começou também a blasfemar contra Cristo.

‑ Cala‑te, filho, cala‑te, ‑ gritava Ana ‑ não blasfemes; não te lembras de que ele te curou quando menino?

‑ É que ele esta bêbado por causa do vinho mirrado ‑ disse Tamar ‑ quando isso passar, estou certa de que ele não falará desse modo.

Entrementes, Jesus exclamava: “Pai, perdoai‑lhes, porque eles não sabem o que fazem”.

Havia passado uma hora, e o efeito do vinho ia desaparecendo em Dimas, atormentado pelo terrível suplício…

Os gritos e mofas dos Pontífices, dos sacerdotes e da soldadesca ressoavam sem interrupção: “Bah! tu que destróis o templo e em três dias o reedificas, salva‑te a ti mesmo; se és o filho de Deus, desce da cruz…Salvou a outros, e a si mesmo não pode salvar… se ele é o eleito, o Cristo‑Rei, desça agora da cruz…”

Este último grito parece que restituiu os sentidos a Dimas, e ele começou a balbuciar: “Cristo‑Rei…Cristo‑Rei…seu reino não é desde mundo…”

Ana e Tamar, mãe e esposa do bandido, estavam junto a Maria, a Mãe de Jesus, e esta, no meio de sua imensa dor, compadecendo‑se dos sofrimentos dessas duas infelizes, abraçou‑as, procurando consolá‑las.

Ao ver isto, da sua cruz Dimas gritou, dirigindo‑se à Virgem:

‑ Senhora, recomendo‑as a ti…

E Maria respondeu a esta súplica abraçando ainda mais ternamente as duas mulheres; e, olhando para seu Filho Jesus, pareceu dirigir‑lhe uma muda súplica em favor do bandido.

Nesse momento Gestas, cheio de raiva, gritava:

‑ Se és o Cristo, salva‑te a ti mesmo e a nós…

Então Dimas, erguendo‑se na sua cruz, encarou o seu antigo companheiro de crimes e lhe disse:

‑ Nem sequer temes a Deus, estando no mesmo suplício? Nós em verde estamos nele justamente, pois pagamos a pena merecida por nossas culpada; mas Esse nenhum fez…

Ao ouvir essas palavras, Jesus dirigiu a Dimas um olhar de misericórdia que comoveu até o mais íntimo das entranhas do bandido. Reparou este no letreiro que se ostentava sobre a Cruz do Redentor, e leu: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus. Porém, aos olhos do antigo malfeitor, naquele letreiro uma palavra brilhava sobre todas: Rei, Rei, REI…

De repente fez‑se um grande silêncio, e então elevando a voz, num tom dos mais humildes, Dimas exclamou:

‑ Senhor, lembra‑te de mim quando estiveres no teu reino…

Todavia, o silêncio fez‑se ainda mais profundo, pois todos os circundantes ficaram espantados ao ouvir o bandido proclamar o Crucificado como Rei…

Então Jesus, com uma voz de infinita misericórdia, que havia de repercutir por todos os séculos, disse ao ladrão:

‑ Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.

… e a terra tremeu, e o sol escureceu‑se, e o véu do templo rasgou‑se… ao expirar Cristo‑Rei, o Filho de Deus.

E pouco depois, com o sorriso nos lábios, expirava também o Bom Ladrão, o primeiro súdito de Cristo‑Rei…

Desde tempos imemoriais a Igreja celebra a 26 de Março a festa do Bom  Ladrão ‑ vulgarmente conhecido pelo nome de Dimas.

Carlos Maria de Heredia, S. J.

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