Entre a vida e a morte

Thiago de Oliveira Geraldo – Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)

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Quem não se enternece ao ver um bebezinho cheio de vida que acaba de nascer? Quantas promessas! Ainda é apenas uma semente que deverá germinar e dar seus frutos. Que tipo de semente será? Ninguém o sabe, somente o tempo testemunhará.

Essas dúvidas no início da vida não se passam na hora morte. Quando se completa o final da trajetória de uma pessoa tudo já está visto e analisado, as decisões que ela tomou, o modo como se portou diante das dificuldades, o caráter que formou entorno de si. Não há mais máscaras, a pessoa é contemplada por inteira.

A morte que tanto assusta o ser humano, que muitas vezes a prorroga até o último extremo, torna-se inevitável. Segundo o curso normal dos acontecimentos todos passaremos por ela. Talvez o que mais espante o homem não seja a própria morte, mas o que está por detrás dela. Haverá uma vida eterna? Terei que justificar minhas atitudes? Serei premiado ou castigado?

Mesmo aqueles que se dizem incrédulos passarão pela morte e é diante de sua grandeza que muitos homens adquirem forças para agir bem, pois “todas as tentativas da técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do homem: o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo de uma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu coração”.¹

Há algo admirável neste trânsito da vida para a morte que fez com que diversos povos da antiguidade respeitassem e até cultuassem os membros de sua família já falecidos. Enterrados ou cremados, os mortos eram postos em lugares próximos à sua gente a fim de receber um culto.

A cultura cristã também adotou o costume de enterrar os corpos dos falecidos. De acordo com a época eles eram sepultados na própria igreja ou no lugar específico para isto, o cemitério. De origem grega (koimetérion) este lugar significa “dormitório”, e realmente é onde os mortos descansam. Ali permanecerão até o dia do Juízo Final, quando a alma se unirá novamente ao corpo.

Esse sentimento trágico acerca da morte – como pensam alguns – se dá pela falta de esperança de que o ser humano existe não somente para esta vida, mas principalmente para Deus: “A morte não é a última palavra acerca do destino humano, porque ao homem foi reservada uma vida sem limites, que tem o seu cumprimento em Deus”.²

Para essas pessoas que entregaram sua alma a Deus, os cristãos desde os primeiros tempos ofereceram orações. A Igreja instituiu no século XI um dia reservado para se rezar aos fiéis defuntos, que no século XIII ficou consignado como 2 de novembro, um dia depois da solenidade de Todos os Santos, pois “com o ânimo ainda dirigido para estas realidades últimas, comemoramos todos os fiéis defuntos, que ‘nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz’ (Oração eucarística, 1)”.³

Eles nos precederam com o sinal da fé, a mesma fé professada pelos católicos em todos os tempos. O cristão não espera apenas uma salvação individual, mas quer que todos alcancem a bem-aventurança. Os atos praticados em vida se fazem sentir – de alguma maneira – depois da morte. Portanto, há uma relação entre vivos e mortos, e é por isso que se deve rezar aos que já partiram e necessitam de purificação.

Eles estão na esperança de atingir o quanto antes o fim para o qual foram chamados, a união com Deus: “Deus chamou e chama o homem a unir-se a ele, com todo o seu ser, na perpétua comunhão da incorruptível vida divina. Esta vitória, alcançou-a o Cristo ressuscitado, libertando com a própria morte o homem da morte”.4

A fé cristã responde ao anseio do ser humano em encontrar uma razão para a morte e a continuação da existência depois dela. A verdadeira vida se alcança no encontro com Deus, que se fez homem e nos amou ao ponto de morrer por nós, para que nós tivéssemos vida. Nesta esperança deve-se rezar pelos fiéis defuntos, sobretudo, no dia que a Igreja reserva de forma especial a eles.

1 – BENTO XVI. Angelus, 2 de Novembro de 2008.
2 – Gaudium et Spes, n. 18.
3 – Gaudium et Spes, n. 18.
4 – JOÃO PAULO II. Angelus, 2 de Novembro de 1997.

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