Como Pilatos entrou no Credo?

Pôncio Pilatos teria passado praticamente despercebido pelos historiadores se no período em que foi prefeito da Judéia, não tivesse participado do injusto processo que condenou Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, seu nome foi incluído no quarto artigo do credo para deixar claro que a redenção deu-se num lugar concreto do mundo, a Palestina. Num tempo concreto da história, isto é, quando Pilatos era prefeito da Judéia.

Tendo a Judéia perdido sua independência, tornou-se uma Província Romana. Administrada por um governador, era este o supremo magistrado a quem eram deferidas todas as causas capitais. Foi então que no ano 26 d.C., Pôncio Pilatos veio suceder Valério Grato no governo desta região.

Os detalhes de sua vida que antecedem à sua chegada na Palestina nos são desconhecidos. Porém muitos historiadores admitem que ele era descendente de uma nobre família romana e que desposara uma parenta do imperador Tibério chamada Cláudia Prócula.

Alguns escritores antigos o chamam de procurador, entretanto, este título parece ter sido concedido aos governadores da Judéia num período posterior ao de Pilatos. Conforme uma inscrição encontrada nas ruínas do Anfiteatro de Cesaréia Marítima, no ano de 1961, o seu verdadeiro ofício era o de Prefeito. Esta lápide encontra-se hoje no Museu de Jerusalém.

Pilatos estava à frente de uma circunscrição a qual pertenciam três pequenas regiões: Judéia, Samaria e Iduméia. Tendo esta última seus limites pouco definidos, necessitava de uma particular atenção. Mesmo sendo províncias de exígua importância, não era nada fácil administrá-las, pois sempre estavam envolvidas em revoltas e conspiraçdolorososões.

As principais funções do Prefeito eram a de manter a ordem na província, arrecadar os impostos que deveriam ser enviados a Roma e administrá-la judicialmente. Por este motivo é que tomou parte no injusto processo que condenou Jesus.

Pilatos habitualmente residia em Cesárea, que era a capital oficial e estava situada à beira mar. Esta cidade foi construída por Herodes o Grande, que lhe deu este nome com o intuito de lisonjear o imperador César Augusto.

Entretanto, durante as festas mais significativas dos judeus, transladava-se para Jerusalém com todos os seus soldados, residindo no Pretório, contíguo à torre Antonia, ao noroeste do templo. Agia assim por temer que aquela multidão viesse a tramar alguma insurreição contra o poderio romano na Judéia. Embora seu regimento não superasse a 4.500 soldados, podia em caso de necessidade, solicitar o auxílio militar do governador da Síria que era o seu superior imediato.

No período em que governou a Palestina, ocorreram diversos incidentes. Flávio Josefo conta que em certa ocasião Pilatos mandou introduzir em Jerusalém o estandarte de sua tropa com as insígnias do Imperador Tibério. A presença de representações humanas na Cidade Santa provocou uma indignação geral. Viam nisto a violação de suas leis divinas que não permitiam elevar nenhuma imagem em sua cidade. Partiu então de Jerusalém uma delegação de judeus, rumo à sua residência em Cesaréia, a fim de protestar.

Permaneceram ali durante cinco dias e cinco noites. Ao final, Pilatos, indignado com aquele tumulto, convidou os judeus para que se apresentassem diante dele. Primeiramente mostrou-se cordial como se quisesse atender os seus pedidos. Enquanto o povo se reunia, apareceram três esquadrões que o cercaram de todos os lados. Pilatos, a fim de intimidá-los, ordenou que suas tropas desembainhassem as espadas.

Esta ameaça só fez acirrar ainda mais o ânimo daqueles judeus. Através do gesto de desnudar os seus pescoços, quiseram demonstrar ao governador que preferiam morrer a ver a Cidade Santa profanada com imagens de falsos deuses. Temendo desordens ainda maiores, Pilatos recuou. Mandou então tirar os estandartes, bem como as insígnias imperiais de Jerusalém.

Flávio Josefo narra outro episódio ocorrido durante seu mandato. Pilatos mandou construir um aqueduto para levar água das imediações de Belém até Jerusalém. Porém, devido ao alto custo do projeto, resolveu então tomar o dinheiro do tesouro do Templo chamado Korbonan. Este fato deu origem a uma grande rebelião e, para reprimi-la, o governador usou de um cruel estratagema.

Mandou que vários de seus soldados fossem à Jerusalém, disfarçados como peregrinos. Deviam estar sem espadas, munidos apenas de um pequeno bastão escondido por entre a roupa. E, quando já se encontravam misturados no meio do povo, todos a uma só vez começaram a golpear os revoltosos. Muitos daqueles que conseguiram escapar das mãos dos soldados, acabaram por morrer pisoteados pela multidão que fugia assustada.

Contudo, o mais grave dos casos sucedidos durante o seu mandato foi o violento massacre ocorrido no Monte Garazim no ano 35. Um samaritano por acreditar haver chegado o tempo messiânico, convenceu o povo a tomar armas contra os romanos. Pilatos, ao ser alertado sobre o fato, ocupou o caminho que leva até este monte sagrado dos samaritanos e ordenou ao seu exército que apunhalasse os revoltosos. Muitos destes morreram e outros foram feitos prisioneiros.

Após este episódio, os samaritanos mandaram uma delegação ao governador da Síria, Lúcio Vitélio, que destituiu Pilatos de seu cargo. Em seguida, mandou-o a Roma para dar contas de sua administração ao Imperador. Depois de 54 dias de viagem desembarcou na Itália. Entretanto, Tibério seu protetor, havia morrido poucos dias antes. Segundo uma tradição recolhida por Eusé¬bio de Cesaréia, o cruel governador não gozava da simpatia do novo Imperador Calígula. Foi então exilado para a França e lá se suicidou.

Nos séculos seguintes apareceram diversas legendas sobre sua pessoa. Algumas delas diziam que Tibério mandou executá-lo, lançando seu corpo no rio Tibre. Outras, tendo como base o Evangelho apócrifo de Nicodemos, apresentavam-no como conver¬tido ao cristianismo junta¬mente com sua mulher Prócula.

Os Evangelistas apresentam Pilatos como sendo um homem venal, inconstante e frívolo. Mesmo sem conhecermos qual tenha sido o seu verdadeiro destino, a imagem que temos gravada na memória é a de um injusto juiz que lavou as mãos do sangue de um inocente. E na água que procurava limpar o seu pecado, viu nela afogar-se o direito romano que deveria ter sido defensor. “A história do direito não conheceu sentença mais arbitrária e antijurídica”

O fato de Pilatos ter sido incluído no Credo é para nós matéria de grande importância. O seu nome nos re¬corda que a fé cristã, além de ser divina, tem também uma origem histórica. A morte de Cristo deu-se num pequeno lugar do Império Romano chamado Judéia, no tempo em que esta era governada por um homem denominado Pilatos.

Embora ele não tenha sido o único envolvido na condenação de Jesus, foi “moralmente culpável e juridicamente responsável”. E conforme as palavras de Nosso Senhor: “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto, por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado”. (Jo. 19, 11)

(Inácio Almeida)

 


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