CORPUS CHRISTI – 2011, por Dom Irineu.

 

Dom Irineu Roque Scherer

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        Hoje se celebra a Solenidade do Corpo de Cristo. Para muitos é apenas um feriadão. Mas para nós, católicos, hoje é o dia de comemorar a entrega daquilo que Jesus tinha de mais humano, sua carne e seu sangue, que foram dados a nós.         A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo teve seu início no Século XIII.

Igreja Católica, diante das descrenças existentes na época, sentiu necessidade de realçar a presença real de Jesus na Eucaristia, mesmo depois das missas, na hóstia consagrada, adorada no silêncio dos sacrários. Foi necessário sair pelas ruas das cidades, no público e grtar bem alto e em bom tom: “Jesus está vivo, no meio de nós. Não estamos sós, no abandono, na solidão, não, Jesus mora no meio de nós e acompanha a vida de todos os seus filhos!”  

Corpus Christi é uma festa singular e constitui um encontro importante de fé e de louvor para o povo cristão. É uma festa que nasceu com a finalidade de reafirmar abertamente a fé do Povo de Deus em Jesus Cristo vivo e realmente presente no santíssimo Sacramento da Eucaristia. É uma festa instituída para adorar, louvar e agradecer publicamente ao Senhor, que “no Sacramento eucarístico continua a amar-nos “até ao fim”, até à doação do seu corpo e do seu sangue” (Sacramentum caritatis, 1).

Mas por que existir um dia especial para comemorar o Corpo de Cristo? Diz a história que no século XIII, uma jovem órfã chamada Juliana, nascida na Bélgica, era monja agostiniana da Abadia de Mont Cornillon. Ela era apaixonada pelo sacramento da Eucaristia. Certa noite ela teve uma visão na qual a Igreja era representada por uma lua cheia com uma mancha negra, que representava a ausência de uma festa para celebrar o Sacramento dos Sacramentos: a Eucaristia.

Ela foi falar dessa visão para o bispo da sua diocese e para os doutores da época. Um desses doutores tornou-se, posteriormente, o papa Urbano IV, que, em 1258, acabou instituindo a festa em sua Diocese para comemorar o Corpo de Cristo. A jovem Juliana foi beatificada e tornou-se a Santa Juliana de Mont Cornillon.

Uma das inteligências mais privilegiadas da história do pensamento humano foi, sem dúvida, Santo Tomás de Aquino; já em vida, teve um enorme prestígio. A sua obra filosófica e teológica continua sendo uma referência obrigatória. Quando o Papa Urbano IV lhe propôs ser cardeal, Frei Tomás não quis aceitar tal dignidade. O Papa perguntou-lhe se recusava o título por razões de humildade, ao que Tomás de Aquino respondeu: “Não, Santo Padre. Na verdade, eu desejo algo maior”. O Papa surpreendido disse: “Você quer ser Papa?”. Então Santo Tomás manifestou o seu desejo: “O que eu quero é que a festa de Corpus Christi se estenda a toda a Igreja”. O Papa, antes de responder, ficou um pouco meditativo, depois lhe disse: “Pedis muito, Tomás, mas o farei se me prometerdes encarregar-vos da composição da liturgia da festa”. E assim foi!

A festa de Corpus Christi começou a celebrar-se em toda a Igreja Católica por meio da Bula Transiturus, de Urbano IV, do dia 8 de setembro de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes.

 Os belíssimos textos que a liturgia da Igreja tem para essa solenidade, tanto na Missa como na Liturgia das Horas, foram escritos por esse grande Santo.

A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: ‘Este é o meu corpo…isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim’. Porque a Eucaristia foi celebrada pela 1ª vez na Quinta-Feira Santa, por isso, Corpus Christi vai cair numa quinta-feira, dia da Insttuição da Eucaristia, 60 dias depois da páscoa.

No Brasil, a festa foi instituída em 1961. A tradição de enfeitar as ruas com tapetes ornamentados originou-se em Ouro Preto, Minas Gerais e a prática foi adotada em diversas dioceses do território nacional. A celebração de Corpus Christi consta da santa missa, da procissão e da adoração do Santíssimo. Lembra a caminhada do povo de Deus, que é peregrino, em busca da Terra Prometida. No Antigo Testamento, esse povo foi alimentado com o maná no deserto e hoje, ele é alimentado com o próprio Corpo de Cristo. Durante a missa, o celebrante consagra duas hóstias, sendo uma consumida e a outra apresentada aos fiéis para adoração, como sinal da presença de Cristo vivo no coração de sua Igreja.

A Igreja em seu início se formou nas grandes cidades de seu tempo e se serviu delas para se propagar. Hoje também a maioria de nossa população mora nas cidades. Por isso, podemos realizar com alegria e coragem a evangelização nas nossas cidades atuais (DA 513). Que Deus nosso Senhor, sempre nos acompanhe, na missão de sermos Igreja viva, de sermos células vivas da Igreja, e lançados no amor de Jesus, que é o Mestre de toda a sabedoria e do ensinamento.

No caminho de Emaús, Jesus iluminou a descrença dos peregrinos sobre sua Ressurreição e partiu o pão com eles, que sentiam o coração arder. O desejo de permanecer com Ele, no seu convívio luminoso, na sua doce companhia, fez brotar as palavras dos discípulos de Emaús: “Fica conosco Senhor! A explicação das Escrituras não foi suficiente para abrir os olhos dos discípulos de Emaús e lhes fazer ver a realidade sob a perspectiva da fé. Seus corações arderam, é verdade, mas o gesto essencial para reconhecerem Cristo, vivo e ressuscitado, foi o pão partido e repartido. Foi nessa hora que Cristo revelou sua intimidade aos companheiros de caminho. Ao participarem do gesto de partilha, reconheceram aquele que durante sua vida, não fez mais do que se doar aos outros. Essa doação teve seu ponto máximo na entrega de sua vida, no Calvário.

Os primeiros cristãos compreenderam muito bem a importância das lições deixadas por Jesus, tanto que “eram assíduos ao ensino dos apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). Na “fração do pão” é evocada a Eucaristia. Dois mil anos depois, continuamos a celebrar a Eucaristia em sua memória. Contemplar Cristo implica saber reconhecê-lo onde quer que se manifeste, com suas diversas presenças, mas, sobretudo, no sacramento de seu corpo e de seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por ele é nutrida, por ele é iluminada. A Eucaristia é mistério de fé e, ao mesmo tempo, “mistério de luz”. Sempre que a Igreja a celebra, os fiéis podem de certo modo reviver a experiência dos dois discípulos de Emaús: “Seus olhos se abriram, e eles o reconheceram” (cf. EE, 3 e 6).

Observemos nosso tríplice relacionamento com a Eucaristia.

Primeiramente – com Jesus Cristo. No Evangelho (Jo 6,51-58) de hoje Ele mesmo nos diz: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.” Eis a receita para quem quer se eternizar: se alimentar de Jesus. Quando recebemos a comunhão na missa, temos Jesus circulando em todo o nosso corpo… Somos parte dEle, e Ele se faz completamente em nós! Ou seja, por alguns momentos, somos um corpo só com Jesus e com toda a comunidade que comungou junto conosco! É nossa missão permanecer assim por toda a nossa vida…

Em segundo lugar, nosso relacionamento comunitário expresso na Segunda Leitura (1 Cor 10,16-17). O pão que nós abençoamos não é o corpo de Cristo? E a resposta é sim. O cálice que nós abençoamos não é o sangue de Cristo? Sim. Já que todos nós comemos do mesmo pão, que é Cristo, bebemos do mesmo sangue, do mesmo cálice com o sangue de Cristo, então, nós temos por vocação ser um só corpo, uma só família. A Eucaristia jamais pode ser entendida como algo individual, para cada um receber e degustar sozinho. Para cada um receber e viver de forma intimista com Deus. A Eucaristia quer significar e quer impulsionar a comunhão do corpo de Cristo, a unidade da família, daqueles que são as testemunhas do Senhor. Nós não podemos celebrar a Eucaristia sem estarmos comprometidos com a comunidade e a comunhão da Igreja, sem querer promover essa comunhão, sem sermos instrumentos para essa comunhão.

A terceira dimensão é a social. Eu sei que a Primeira Leitura (Dt 8, 2-3. 14b-16a) não se refere só a isso. Ela tem algo mais. É nela que eu me inspiro porque aquele povo que foi alimentado pelo maná que Deus mandou, é o povo que tinha saído de um regime de escravidão e estava a caminho da terra da liberdade, para ser dono da sua vida, do seu destino, para de fato, construir uma sociedade alternativa, igualitária, fraternal, solidária. Nosso irmão é como a Hóstia, não se pode profanar. Em cada pessoa humana encontramos a própria pessoa de Jesus.

A celebração da Santa Missa torna presente a morte de Jesus Cristo na Cruz e na comunhão dá-se-nos como alimento para o caminho da nossa vida, de que é símbolo e figura o maná – recordado na primeira leitura da Missa (Dt 8, 3.16) dado diariamente por Deus ao povo de Israel durante a sua peregrinação no deserto, para nos fortalecer até chegar à meta a que Deus nos destina: a glória do paraíso.

Mais ainda: permanece nos nossos sacrários em atitude de espera, para que irmos a Ele oportuna e inoportunamente, nos acolhendo sempre no seu místico silêncio.

IMG_2096Como prolongamento da Santa Missa, acompanharemos hoje o Senhor que percorrerá as ruas desta cidade, espalhando bênçãos. O seu trono será a custódia, o ostensório. Nas ruas, em sua homenagem, tapetes de flores. Vamos vestidos de festa para cantar o Amor dos amores: tudo nos parece pouco para honrar o Senhor e para que o ambiente reflita a alegria que nos emociona.

Na intimidade do diálogo pessoal com Jesus, com sinceridade, lhe perguntamos: está  contente com o meu modo habitual de comportamento? Há alguma coisa em mim que lhe desagrada? Talvez, no interior de nós mesmos, demos conta de que enquanto Jesus se dá sem medida, nós ainda nos damos muito pouco.

Esta festa do Corpus Christi não pode reduzir-se a acompanhar o Senhor na sua passagem pelas ruas da cidade. O Concílio Vaticano II proclamou com força a chamada universal à santidade. Na Constituição sobre a Igreja o texto diz: “É, pois, bem claro, que todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (SC40). O chamamento de todos, sem exceção, à plenitude da vida cristã, quer dizer, à santidade, é-nos proposto como verdade evidente. Deus se dá a nós e nos quer santos. E esse querer não é uma utopia, porque o próprio Senhor nos dá os meios.

O amor de Deus para conosco não conhece medidas. Jesus está morrendo na Cruz, despojado até de suas vestes. Entregou-se totalmente a nós, mas parece como se não estivesse satisfeito e olha à sua volta para comprovar se ainda resta alguma coisa para nos dar. Os seus olhos encontram-se com os de sua Mãe e, voltando-se para João que está junto d’Ela, diz-lhe: “Mulher, eis aí o teu filho”; depois disse ao discípulo: “Eis aí a tua mãe” (Jo 19, 26-27). Que momento belo, solene, misterioso, mas real, no qual nos dá sua Mãe, a mulher eucarística, aquela que se tornou o primeiro sacrário vivo sobre a face da terra.

Concluo rezando a oração de “Ação de Graças de Santo Tomás de Aquino”:   Dou-vos graças, Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno, a Vós que, sem merecimento nenhum da nossa parte, mas por efeito de vossa misericórdia, vos dignastes saciar-nos, sendo pecadores e indignos servos, com o Corpo adorável e com o Sangue precioso do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nós vos pedimos que esta comunhão não nos seja imputada como uma falta, digna de castigo, mas interceda eficazmente para alcançar o nosso perdão; seja a armadura de nossa fé e o escudo da nossa boa vontade; livrai-nos de nossos vícios;

Apagai nossos maus desejos; mortificai nossa concupiscência; aumentai em nós a caridade e a paciência, a humildade, a obediência e todas as virtudes; servi-nos de firme defesa contra os ataques de todos os meus inimigos, visíveis e invisíveis; serenai e regulai perfeitamente todos os movimentos, de nossa carne e de nosso espírito; uni-nos firmemente a Vós, que sois o único e verdadeiro Deus; e seja, enfim, a feliz consumação de nosso destino.

Dignai-vos, Senhor, nós Vos suplicamos, conduzi-nos, a nós pecadores, a esse inefável festim, onde, com o vosso Filho e o Espírito Santo, sois para os vossos santos, luz verdadeira, gozo pleno e alegria eterna, cúmulo de delícias e felicidade perfeita. Pelo mesmo Jesus Cristo, Senhor Nosso.

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Um Comentário para: “CORPUS CHRISTI – 2011, por Dom Irineu.

  1. Q semana abençoada por esse feriado de Corpus Christ já q as crianças vão estar mais perto do próprio Deus com essa experiência de estar num lugar lindo desses em comunhão com todos q participam, um encontro abençoado por intermédio de Maria nossa mãe cada um possa sentir Deus em seus corações.

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