A 17 séculos, Constantino concedia liberdade à Igreja

                                                               
                                       Pe. Colombo Nunes Pires, EP

 Roma, inverno do ano 313…
Há dezessete séculos, portanto, o imperador Constantino deixava Roma, com numeroso séquito de familiares, ministros e soldados, para uma viagem a Milão, onde participaria das festividades das núpcias de sua irmã Constança com o Licínio, imperador da vasta região oriental. Naqueles tempos de ocaso, o império outrora monolítico, fora fragmentado, passando a ser governado por dois ou mais imperadores.
Após os dias de festa, a estadia desses dois césares em Milão se estendeu por cerca de dois meses, permitindo que tratassem calmamente questões de suas administrações. Uma das questões candentes era a posição do Império ante o surpreendente crescimento da comunidade dos cristãos, não obstante as terríveis perseguições desencadeadas ao longo dos séculos anteriores. Aliás, a mais recente delas, promovida por Diocleciano, estendeu-se até 303, porém nos últimos tempos sua aplicação era mínima, uma vez que seus decretos haviam se tornado quase letra morta.
Natural da Iliria (nação situada na ex-Iugoslávia de nossa época), Constantino subiu ao trono, em 312, pela força das armas — pratica então vigente — após derrotar Maxencio, junto à Ponte Milvia, na periferia de Roma. Conforme narra seu biógrafo, Eusébio, na incerteza anterior ao desenlace final do combate, Constantino foi favorecido com a visão de uma Cruz no céu, com a inscrição “In hoc signo vinces” (com este signo vencerás). Por isso, no escudo de seus soldados passaram a figurar o símbolo da cruz e abreviaturas do nome de Cristo.
No Arco do Triunfo, ainda hoje existente, que mandou erguer próximo ao Coliseu para comemorar essa vitoria, Constantino deixou registrado para a posteridade que venceu “por uma inspiração da divindade”, fórmula que poderia ser aceita por pagãos. Desse modo, sem romper as amarras com o antigo culto oficial do Império, o Imperador, por seus atos, passou a considerar o Deus dos cristãos como sendo verdadeiramente digno de sua adoração e de seu temor.
A vitória obtida em Ponte Milvia teve, portanto, um sentido mais sério do que o de um simples ajuste de contas entre dois ambiciosos. Até então tinha ele sido um pagão tolerante, mas a partir desse lance passou a ser um pagão a caminho do seu batismo.
Com tal fundo de quadro, compreende-se melhor a decisão de conceder liberdade à Igreja nascente.
O Edito de Milão é um protocolo, um declaração conjunta de dois governantes, com instruções dirigidas aos governadores provinciais. A Historia não dispõe de um texto assinado e promulgado em Milão, que fixe as bases da política cristã. Existem algumas cartas de Constantino e outras de Licencio, mencionadas por Eusébio, que transcrevem alguns pontos:
“Enquanto estávamos felizmente reunidos em Milão, Constantino Augusto e eu, Licinio Augusto, tratávamos em conjunto dos grandes interesses do Estado. Procurando solicitamente tudo o que interessa ao bem publico, consideramos que entre as muitas coisas uteis ou, para melhor dizer, antes de todas as outras, importa estabelecer as regras relativas ao culto e ao respeito pela Divindade” (note-se a expressão aceitável por um pagão como Licinio). E prossegue:
“Nós queremos que todo aquele que queira seguir a religião cristã possa fazê-lo sem qualquer receio de ser incomodado. Os cristãos tem plena liberdade para seguirem a sua religião. O que concedemos aos cristãos é igualmente concedido a todos os outros cultos”.
Os imperadores estabelecem que deveriam ser restituídos aos cristãos todas propriedades que lhe haviam sido tomadas, e a Igreja teria o direito de ser ajudada a construir seus templos. Uma curiosa determinação assinala: todos deviam “incluir em suas preces à Divindade, suplicas pela saúde do Imperador e pela estabilidade do Império”.
Afinal de contas, de um modo ou de outro, era o inicio de uma nova ordem.
A cruz, que séculos antes era o instrumento de tortura dos mais ignominiosos e horríveis, mudou radicalmente de significado depois que nela expirou Cristo Salvador. Passava agora a figurar em lugar de honra entre os símbolos do próprio Império romano.
Como o botão de uma flor que se abre à luz do dia, a Igreja passou a florescer livremente. Sim, florescer como uma planta cuja semente teve uma longa germinação sob a terra — lembremo-nos das catacumbas — e numa terra regada pelo sangue dos mártires!

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