O monge que fugiu de seu mosteiro

Pe. Ricardo Basso, EP

Nas noites frias de inverno, junto ao agradável fogo das lareiras, ainda hoje, em recantos da velha Europa, os avós contam a seus netos esta lendária história…

Há muito tempo morava numa simpática aldeia um menino chamado Lucas. Sonhava todos os dias em viver como monge no antigo e imponente mosteiro que erguia-se no alto da colina, fora dos muros da cidade.
Os anos se passaram até que, um dia, Lucas teve seu sonho realizado. Foi recebido como noviço. Profundamente devoto de Nosso Senhor Jesus Cristo, demonstrou grande piedade em sua vida religiosa.
Com muita freqüência, o viam de joelhos na capela, em fervorosa oração, oferecendo a Deus com alegria, por intermédio da Santíssima Virgem, sua radiante juventude.
O abade e todos os monges do mosteiro tinham por ele grande admiração, tal eram sua bondade e diligência, e o nomearam para o cargo de “irmão chaveiro”, função que ele passou a desempenhar com grande zelo. Todas as noites era o último a se recolher: não podia dormir sem antes fechar todas a portas; e, pela manhã, era o primeiro a despertar: tinha de deixar tudo pronto para quando o abade e seus irmãos de hábito acordassem para mais um dia de oração e trabalho.
Certo dia, porém, estando Lucas em meditação no claustro junto ao muro do mosteiro, ouviu alguém, de fora, chamá-lo:
— Lucas! Lucas!
Surpreso, aproximou-se da sacada e, vendo um vulto negro, perguntou:
— Quem é você?
— Lucas, não está me reconhecendo? Sou Walfrido, seu amigo. Não se lembra mais de mim?
Lucas reconheceu naquele homem um antigo colega que estudara com ele na escola da aldeia, quando ainda eram meninos. Walfrido entabulou uma conversa com Lucas, recordando-lhe as aventuras do passado, e tentou convencê-lo a abandonar a santa vida que levava, fugindo do mosteiro.
Lucas a princípio resistiu com firmeza, argumentando contra Walfrido. Mas aos poucos começou a sentir saudades das “liberdades” de outrora e foi cedendo aos embates daquela forte tentação. Após longo diálogo, acabou ouvindo a voz do mau conselheiro e, naquela mesma noite, enquanto todos no mosteiro dormiam, pegou umas poucas roupas e preparou-se para fugir. Porém, antes de realizar a terrível apostasia, ajoelhou-se ante uma bela imagem de Nosso Senhor, que ocupava lugar de honra junto à porta principal do mosteiro, e lhe disse:
— Soberano Senhor, eu, que te servi honestamente até hoje, dia em que não posso conter esta força que me arrasta para longe de ti, encomendo-te as chaves deste mosteiro.
E depositando-as sobre as mãos da imagem do Divino Redentor, partiu.
Transcorreu pouco tempo e, não somente Walfrido, mas também outros falsos amigos que Lucas reencontrou, abandonaram-no por completo. Sua alma caiu em grande confusão, não tendo ele coragem de voltar ao convento. Transformou-se num andarilho, levando vida ímpia e vergonhosa durante quinze anos! Ele que, quando era bom monge, fazia vigílias noturnas diante do Santíssimo Sacramento, agora passava as noites em tavernas, como escravo de seus vícios.
Torturado pelos remorsos de sua consciência, e conservando ainda uma vaga esperança de perdão, passou certo dia próximo ao mosteiro em que habitara e sentiu o desejo de parar e perguntar pelo “irmão chaveiro”, a algum monge que encontrasse, para saber o que os religiosos comentavam a seu respeito. A fim de não ser reconhecido, cobriu-se com seu manto de modo que não lhe vissem toda a face. Dirigiu-se ao porteiro de sua antiga casa religiosa e perguntou:
— Dize-me, irmão, o que me contas de Lucas, o monge chaveiro?
— Vai muito bem — respondeu o velho monge — tão santo e devoto como sempre, desempenhando maravilhosamente seu ofício de irmão chaveiro. Todos os religiosos o querem muito, e já está no convento há vinte e seis anos, demonstrando grande piedade. Certamente queres falar com ele? Espera aqui que vou chamá-lo.
Lucas ficou estupefato com essas palavras. Não conseguia compreender o que acabava de ouvir. Permaneceu imóvel, esperando pelo momento do encontro com o tal irmão chaveiro quando viu, ao longe, vindo em sua direção, um monge trazendo aquelas mesmas chaves que há quinze anos ele, Lucas, havia deixado sobre as mãos da imagem do Salvador. Não podia crer no que seus olhos viam: o monge tinha a fisionomia do próprio Cristo, O qual, aproximando-se, lhe disse:
— Lucas, meu filho, durante quinze anos, com tua fisonomia, Eu desempenho o ofício de monge chaveiro e, portanto, os demais monges ao me olharem, pensam ver a tua face. Volta e continua servindo-Me como se nunca tivesses fugido, porque nada sabem de teus erros, crendo que continuas em teu posto. Faze penitência para alcançar o perdão de tuas numerosas faltas e não tornes a pecar.
Tendo dito isto, lançou um último olhar de misericórdia àquele filho pródigo e desapareceu.
Lucas, profundamente arrependido e maravilhado por esse grandioso milagre, pegou as chaves, vestiu novamente seu hábito de religioso e retomou o ofício de irmão chaveiro, que exerceu até o dia de sua santa morte.

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho, nº 11, novembro de 2002.

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