Um ladrão… ou um Santo?

Nas terras quentes e escarpadas da católica Espanha, havia um temido Ladrão, cujo nome intitulava todos os cartazes espalhados pelos dominios da Coroa Espanhola; seu nome era: Ferreol!

Ferreol encabeçava um bando de experientes gatunos que viviam na região das montanhas, onde os viajantes, ao passarem com seus pertences eram cruelmente atacados por homens que não conheciam o medo. E não se sabia o quanto o fruto de seus roubos já haviam os enriquecido.

Certo dia porem, dois bandidos do grupo de Ferreol, em seu “labor” diario, se depararam com uma situação inusitada… um ancião de aparência austera e barba longa, trajado de uma limpa e impecável batina, transitava à sua cidadela, vindo do povoado vizinho; era um sacerdote. Entre os dois ladrões surgem a seguinte dúvida: vamos assaltar ao padre? Seus corações já haviam se endurecido diante das admoestações que Deus os fazia. Eles tomam a resolução de investir contra o padre. Ao abordar o humilde sarcedote, constataram que sairiam sem nada, pois o sacerdote não possuia nenhum bem. Um dos bandidos, para conter a cólera do companheiro, sugere que levassem o padre em presença de seu chefe e ele resolveria fazer o que bem entendesse da pessoa dele.

Ao ser conduzido à caverna, de mãos atadas e olhos vendados, onde se escondia Ferreol e seu bando, o sacerdote já encomendava a sua alma à Santíssima Virgem, pois já conhecia a fama de a quem em breve se apresentaria. Chegando ao local, num ambiente de rizadagem e anarquia, estavam amotinados em seus aposentos frios e sujos.

Ferreol surgiu em meio às sombras da caverna e dirigiu-se ao padre: “tenho o desejo de confessar-me e quero que me atenda agora!, pois se não me ouvires…” O sacerdote temendo o mau, rogou a Deus e à Virgem Senhora para que o inspirassem naquela situação. Então atendeu ao apelo. Após a sua acusação, Ferreol mostrou-se empedernido em seus pecados e fala-lhe: “não me arrependo de nada! O padre insiste, porem a resposta continua negativa. Então fala-lhe novamente:

– Ao menos aceite um conselho.

– Esta bem, mas seja breve.

– Antes de qualquer assalto pense na seguinte frase: Não queiras para o outro o que não queres para si.

– Se é só isso eu aceito! E vá embora daqui imediatamente antes que mude de ideia.

Esta frase tão simples seria capaz de mudar o coração deste empedernido ladrão?

Passaram-se os dias e surgiu uma oportunidade para o bando aumentar seus furtos. Uma rica caravana vinha trazer presentes ao condado que acabara de ser assumido por um distinto nobre da coroa espanhola. Oportunidade salutar. Mas as palavras do sacerdote caíram sobre Ferreol assim como o martelo atinge a bigorna. No momento exato para dar a ordem, veio-lhe a frase: “Não queiras para o outro o que não queres para si”. Não conseguindo mover-se, a oportunidade passa-lhe aos olhos. Este fato se repete outras vezes… A partir desse dia o temido ladrão toma uma forma de ser diferente. O conselho do padre teria dado certo? Não tardou para o bando perceber tal mudança. Comentavam entre si:

– O Ferreol não é o mesmo… Está mudado!

– Vive longe de nós e quando é procurado dá um jeito de fugir.

– Parece que virou beato! Nem consegue mais roubar.

– Deve ter sido conselho daquele padre… Devíamos tê-lo matado quando podíamos!

Intrigados resolveram ir ter com Ferreol. Ao entrarem nos aposentos de seu líder, encontraram-no ajoelhado, rezando!!! Espantados e cheios de indignação, lançaram blasfêmias e tentaram dissuadi-lo, porém, o arrependido ladrão opôs-se às suas ludibriosas ideias. Ao serem contrariados laçaram-se sobre Ferreol e esfaquearam-no sem piedade. Já moribundo, deitado em meio ao sangue, lembrou-se do sacerdote e das palavras usadas para converte-lo: “não queiras para o outro, o que não queres para si”.

Após alguns dias, os bandidos realizaram um assalto na moradia de um nobre, que era conhecido por produzir bons vinhos. Veio-lhes a ideia de lançar o corpo de Ferreol em um barril de vinho para que sumisse da face da terra qualquer memória deste virtuoso homem, que na hora de sua morte, por causa de um conselho bem dado, soube defender a virtude da fé, entregando a sua vida com a palma do santo martírio. Contudo qual não foi a surpresa do proprietário do barril, após cinco anos, quando encontrou o corpo de Ferreol incorrupto, dentro do recipiente. Provando desta forma a sua santidade.

Assim também nós acolhamos bem este conselho: “não queiras para o outro o que não queres para si”.

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