Santa Juliana de Cornillon e a festa de Corpus Christi


 É admirável verificar na história da Igreja como Deus age, seu modo de escolher seus santos, dispondo-os à tarefas que muitas vezes nos parecem impossíveis. Aparenta até mesmo que Deus escolhe a maneira mais difícil e complicada para realizar seus feitos sobre a Terra, mas não, Deus sabe o que faz. Assim, para admoestar a Corte Pontifícia a retornar para Roma e terminar o exílio de Avignon, Deus escolheu Santa Catarina de Sena, analfabeta até aos 30 anos, simples leiga e terciária da Ordem de São Domingos.  Da mesma forma, a mensagem de Nossa Senhora de Lourdes não é dirigida aos teólogos ou bispos, mas sim a um pobre camponesa, de saúde frágil e quase sem instrução, Santa Bernadette Soubirous. Enfim, os exemplos são vários. A insitutição da festa de Corpus Christi também se mescla com os esforços e  sofrimentos de uma santa, aparentemente frágil, escolhida por Deus para instituir essa festa em toda a Igreja: Santa Juliana de Cornillon (ou de Liège).

 Santa Juliana de Cornillon nasceu em Liège, Bélgica, no ano de 1193. Seus pais estavam já há bastante tempo casados, contudo ainda não tinham tido a graça de ter um filho. Para obter tal graça de Deus, não poupavam esforços em agradá-Lo. Procuravam  praticar todo tipo de boas obras, implorando a Deus a graça da fecundidade com lágrimas e gemidos. O bom Deus não tardou em atendê-los dando-lhes uma filha, Agnes. Um ano depois, para a
surpresa de ambos, pois eles já eram de idade, receberam de Deus Juliana. Apenas cinco anos depois, ambos os pais morrem, e as duas, Agnes e Juliana, tornam-se orfãs. Juliana e sua irmã foram, a partir daí, educadas no convento de Monte Cornillon.

 A Jovem Juliana, que demonstrou ser virtuosa desde a mais tenra idade, recebe o hábito religioso em 1207, com apenas 14 anos. A partir daí, nunca poupou esforços para corresponder perfeitamente às obrigações que a vida religiosa lhe apresentava. Era assídua na oração e sempre pronta a obedecer a ordem de suas superiores. Nutria grande admiração por Santo Agostinho e São Bernardo de Claraval. Conta-se, inclusive, que chegou a memorizar vinte sermões completos de São Bernardo, na intenção de meditá-los profundamente e crescer no amor a Deus. Mas o que é mais admirável em sua vida, fazendo-a ser lembrada em todo o orbe católico, é sua intença devoção ao Santo Sacrifício da Missa e a Jesus Sacramentado. Sua superiora notando seu espírito de contínua oração garantiu-lhe o direito de se dedicar mais à vida de oração, sendo vista continuamente em êxtases, enquanto rezava, por suas irmãs.

 Nosso Senhor Jesus Cristo, que a havia escolhido para instituir a festa de Corpus Christi, não tardou em incumbí-la de sua missão, e finalmente no ano de 1208 lhe premiou com uma visão. Santa Juliana, estando em oração, viu subitamente uma como que uma lua, admirável por seu brilho. Esta mesma lua, porém, tinha uma mancha escura, como que uma incisão, que lhe tirava parcialmente o brilho e a beleza.  A Santa,   sem entender a visão e temendo ser ela obra do demônio, relatou tudo a sua superiora. Esta aconselhou-a a não pensar mais na visão e esquecê-la.

 Uma grande provação se fez presente na vida de Santa Juliana nesses momentos. Tentando obedecer sua superiora, esforçava-se por esquecer o acontecido; porém parecia-lhe que quanto mais se esforçava para olvidar-se, mais arraigada na memória lhe ficava a visão. O temor de estar sendo iludida pelo demônio, com o receio de deixar de cumprir com seus deveres de religiosa e de tornar-se tíbia nos exercícios espirituais, lhe causava tormento. Por fim, em vista das provações pela qual passava, chegou a implorar a Deus que a fizesse esquecer a visão. Mas… tudo foi em vão.

Certo dia, enquanto rezava, foi subitamente envolvida por uma voz angélica que lhe disse: “a lua representa a Igreja; o brilho representa as diferentes solenidades celebradas ao longo de todo o ano litúrgico. A mancha escura que obscureceu uma parte da lua significa a falta de uma festa, que é da vontade de Deus que seja instituída, e que será para homenagear o Santo Sacramento do Altar […]. Que esta festa seja observada por toda a cristandade, e isto por três razões. Primeiro, a fim de que a fé nos divinos mistérios, que já havia arrefecido nos últimos anos e que poderá tornar-se mais fria ainda nos anos vindouros, seja plenamente confirmada; segundo, a fim de que os homens que buscam a verdade possam ter a oportunidade de serem aí instruídos; e que também possam, pela ocorrência desta festa, avançar no caminho da perfeição; e terceiro, a fim de que as irreverências e impiedades que são cometidas diariamente contra este Sacratíssimo Sacramento possam ser reparadas por este ato solene.”

 Após isso, Santa Juliana foi envolvida por uma imensa alegria. Dispôs-se prontamente a realizar os desejos de Nosso Senhor. Comunicou o fato ao bispo de Liège, Dom Robeto de Thorote, e também ao bispo Jacques de Pantaleón. Este, por desígnio da Providência, viria a tornar-se o futuro papa Urbano IV.

 Jacques de Pantaleón após alguns anos foi elevado ao sólio pontifício e sendo conhecedor dos relatos de Santa Juliana, decidiu que a festa do Corpo de Cristo deveria ser universal. E fez isso através da bula Transiturus de hoc mundo, publicado em 11 agosto de 1264.

 A partir daí, esta festa vem sendo celebrada em todo o orbe católico. Quantas conversões, milagres e graças não obtiveram os homens ao longo de toda a história ao participarem piedosamente dessa festa? E quantas graças não nos esperam este dia? Nosso Senhor quis que esta festa fosse celebrada em toda a Igreja, concedendo abundantes graças. Que esta festa Corpus Christi seja ocasião de crescimento espiritual para nós todos e que, pela intercessão de Santa Juliana de Cornillon, possamos agradar a Deus assim como ela o agradou com sua profunda devoção a Eucaristia.

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